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BENDEGÓ

Metálico

TYPE:

CLASS:

CLAN:

GROUP:

SUBGROUP:

PET TYPE:

EST. SHOCK:

INTERPERISM:

PARENTS:

YEAR:

DESCRIPTION:

ACONDRITO

OCTAEDRITO GOSSEIRO

IC

-

-

-

BRASIL - BA

1784

Meteorito Metálico Octaedrito Grosseiro IC.

PETROGRAPHY:

Na amostra de mão, pelo menos 37 ocorrências de troilita são facilmente identificadas a olho nu na grande face polida do corpo principal do meteorito exposto no Museu Nacional. Elas apresentam-se como manchas escuras, alongadas e alinhadas no sentido longitudinal ao grande eixo do meteorito. Outra feição que se destaca macroscopicamente são seis manchas de coenita, de cor ocre, e tendo no interior de sua malha rendada nódulos de troilita. Pode-se observar também nessa face polida muitas lamelas de kamacita formando o padrão Widmanstätten. Em todo o corpo da massa observam-se numerosas cavidades circulares ou elipsoides, de dimensões e profundidades variáveis, algumas com até 10 cm de diâmetro. Esses furos são consequência do processo de ablação durante a passagem do corpo pela atmosfera terrestre, cuja elevada temperatura fundiu e vaporizou a troilita (FeS) e aumentou as dimensões do espaço anteriormente preenchido por esse mineral. A kamacita, uma liga α de Fe-Ni, é volumetricamente a fase mineralógica predominante no Bendegó, correspondendo a mais de 2/3 de seu volume. Apresenta-se em lamelas com largura média de 1,8 mm. Em abundância, o segundo mineral mais importante na massa do Bendegó é a taenita, uma liga β de Fe-Ni, semelhante à kamacita, porém com maior teor de Ni. Na amostra estudada a taenita ocorre como finíssimas lamelas (5 a 19 µm de largura), dispostas entre as placas de kamacita, ao redor de nódulos de troilita, ou circundando manchas de coenita. O restante da massa é representado por uma mistura granular de kamacita e taenita, em forma acicular, conhecida como plessita e numerosos nódulos de troilita (FeS). A assembleia de fases presentes neste meteorito inclui ainda schreibersita e rabdita (Fig. 7C), polimorfos de ((Fe,Ni)3P), encontradas comumente associadas com coenita ((Fe,Ni,Co)3C), cromita (FeCr2O4). As linhas de Neumann são resultado de deformações mecânicas que ocorrem a baixas temperaturas, abaixo dos 600º C (Mason 1962). Na amostra estudada estas linhas estão bem definidas. Carvalho et al. (2011).

GEOCHEMISTRY:

Análises químicas desses fragmentos de óxido de ferro sugerem origem meteorítica, haja vista conter 3,29% de Níquel e 0,28% de Cobalto, além de Ferro combinado com o Oxigênio. Para verificar as concentrações dos demais elementos, acessar o link da fonte utilizada http://www.ppegeo.igc.usp.br/index.php/rbg/article/view/7821 . Fonte: Carvalho et al. (2011).

CLASSIFICATION:

Pela estrutura, o Bendegó é classificado como um meteorito Octaedrito Grosseiro. Quimicamente, os teores encontrados para Ni, Ga, Ge e Ir, bem como as concentrações de outros elementos traços como Co, W, Sb, Au e As são consistentes com o grupo IC. Quando os dados disponíveis para o Bendegó são confrontados com os outros membros do grupo IC, percebe-se que Bendegó apresenta teores intermediários de Ge, Au e As, e o maior valor para o Ga (54-56 ppm), associados a baixos teores de Ir (0,17 a 0,22 mg/g). Fonte: Carvalho et al. (2011).

CLASSIFIERS:

Não informado pelo Meteoritical Bulletin Database. Segundo Carvalho et al. (2011), diversos autores ao longo dos séculos estudaram e reclassificaram o Bendegó.

STORY:

Foi descoberto pelo menino Domingos da Motta Botelho, em 1784. O garoto campeava o gado quando percebeu que ali na invernada havia uma pedra grande, amarronzada, bem diferente das outras da Região. Chegando em casa, comentou com o pai, Sr. Joaquim, a sua descoberta. Joaquim da Motta Botelho, um fiel súdito do Governo, informou às autoridades ter encontrado sobre uma elevação próxima ao Rio Vaza Barrís, nos sertões de Monte Santo, Bahia, “uma pedra de tamanho considerável da qual se presumia conter ouro e prata”. O então Governador, D. Rodrigo, ficou muito impressionado com a descoberta e no ano seguinte (1785) encarregou o Capitão-mor de Itapicurú, Bernardo Carvalho da Cunha, de providenciar o seu transporte para a capital Salvador. O Capitão Cunha escavou ao redor do meteorito uns 4 níveis. Auxiliado por 30 homens e algumas alavancas conseguiu colocar o meteorito sobre uma carreta especialmente construída para o transporte de carga tão pesada. Para facilitar a passagem ele pavimentou uma pequena estrada até o riacho. Tendo 12 juntas de bois atreladas ao veículo, partiu vagarosamente sobre um leito de pedra especialmente construído para a passagem da carreta. Seu plano era levar o meteorito até o Riacho de Bendegó e depois para o Rio Vaza Barrís, até alcançar o Porto de Salvador e de lá seguir de navio até a capital. Tudo corria bem até a descida do leito do riacho onde, não dispondo de freios, o veículo ganhou momento, tendo sua velocidade acelerada em muito, o que impôs um atrito sobre os eixos incendiando-os. A carreta correu desenfreadamente morro abaixo, indo parar junto com o meteorito no leito do riacho Bendegó, dentro de uma ipueira, a apenas 180 metros do ponto de partida. Nunca se soube se algum boi veio a morrer neste atrapalhado empenho. Bernardo Carvalho da Cunha, em face do acontecido e levado pelo desânimo, abandonou a façanha. Cientificado do fato, D. Rodrigo levou-o ao conhecimento do Ministro de Estado de Portugal, enviando-lhe alguns fragmentos do material. O fracasso, entretanto, veio a favorecer o fato de o meteorito encontrar-se hoje no Brasil, pois de outra forma teria ido parar em Portugal ou teria sido totalmente fundido em busca de metais preciosos. A notícia correu o mundo e a misteriosa “pedra” foi visitada por alguns cientistas viajantes, entre os quais A. F. Mornay que, em 1810, que suspeitando tratar-se de um meteorito, foi a Monte Santo encontrando-a exatamente no local onde fora deixada, vindo a constatar que de fato tratava-se de um meteorito. Com muita dificuldade, conseguiu retirar uns poucos fragmentos, que juntamente com as observações pessoais colhidas foram remetidos a Wollaston, da Real Sociedade de Londres. Seis anos mais tarde era publicada no “Philosophical Transactions” a carta de Mornay e as análises realizadas por Wollaston. Em suas informações, Mornay atribuía ao meteorito o volume de 28 pés cúbicos e o peso de 14.000 libras e com as dimensões de 7 pés x 4 pés x 2 pés de espessura. Outros visitantes ilustres foram a dupla de naturalistas alemães Spix e Martius em 1820, que foi conhecer o meteorito em companhia de seu descobridor Domingos da Motta Botelho, já um homem àquela época. Encontraram o meteorito no mesmo ponto deixado e ainda sobre a carreta do Cap. Cunha. Com muita dificuldade e depois de atearem fogo à “pedra” por 24 horas, conseguiram retirar alguns fragmentos do meteorito, os quais foram levados para a Europa, o maior deles sendo doado ao Museu de Munique. Como na estória da Bela Adormecida, o meteorito permaneceu no leito do rio por cerca de 100 anos, quando em 1883 o Prof. Orville Derby, do Museu Nacional, tomou conhecimento do meteorito. Derby contatou o engenheiro da Estrada de Ferro Inglesa (British Rail Road), que construía uma extensão da estrada de Monte Santo a Salvador, que o notificou que em breve a estrada alcançaria o ponto mais próximo ao meteorito, ou seja cerca de 100 km de distância, em terrenos montanhosos. Contudo, os custos do transporte estariam bem acima das possibilidades do Museu. Em 1886, o Imperador D. Pedro II tomou conhecimento do fato pela Academia de Ciências de Paris, durante uma visita à França, prontificando-se a providenciar o transporte de peça tão importante para o Rio de Janeiro, assim que retornasse ao Brasil. Aqui, o Imperador chamou o Sr. José Carlos de Carvalho, um oficial aposentado da Guerra do Paraguai, primo do engenheiro da Estrada de Ferro Inglesa contatado por Derby anos antes. Informando-se das possibilidades do transporte, José Carlos de Carvalho procurou apoio da Sociedade Brasileira de Geografia, a qual tomou todas as providências para que o transporte fosse efetuado. A Sociedade encarregou-se, principalmente, da parte financeira, conseguida por intermédio de um generoso patrocínio do Barão de Guahy, cujo nome de batismo era Joaquim Elysio Pereira Marinho. Organizou-se, então, uma comissão do Império para a recuperação do Bendegó, formada por José Carlos de Carvalho e pelos engenheiros Vicente de Carvalho Filho e Humberto Saraiva Antunes. No dia 7 de setembro de 1887, quando era comemorado o aniversário da Independência, iniciou-se o trabalho de remoção do meteorito, com uma solenidade cívica às margens do riacho Bendegó. Ergueu-se ali um marco denominado “D. Pedro II” em homenagem ao Imperador. Na ocasião, colocou-se dentro de uma pequena caixa de ferro um exemplar do termo de inauguração do trabalho de remoção e um exemplar do Boletim da Sociedade Brasileira de Geografia, que publicava um memorial sobre o meteorito. No relatório da viagem, publicado em português e francês em 1888, o Cap. Carvalho relatou detalhadamente o transporte do Bendegó, a geografia do local e as dificuldades enfrentadas por todos. Na descrição da geografia local, Carvalho deu uma visão completa da Região, mostrando o erro em que têm incorrido muitos sábios naturalistas que visitam os sertões somente em tempos de seca. Este erro consiste em considerarem aquelas paragens como desertos áridos, sem vegetação e inabitáveis. Conforme a época em que o sertão é percorrido, apresenta painéis de natureza tão diferentes, tão opostos entre si, que muitas vezes o naturalista ou um outro viajante qualquer custa a crer que o sítio em que se encontra seja o mesmo avistado por ele alguns dias ou semanas antes. Por ocasião das águas, o que eqüivale a dizer da Vida, a vegetação é pujante e original, o céu límpido e a natureza encantadora. Na época das secas, todavia, os campos se apresentam negros ou pardos e o solo, quando não arenoso, fende-se profondamente, as árvores apresentam-se desnudas, sem folhagem, à exceção dos juazeiros e umbuzeiros; e a paisagem toma um aspecto de Inverno rigoroso, sejam os climas frios ou temperados. Basta porém que se precipitem as primeiras chuvas para que a temperatura caia, a vegetação reviva e ao cabo de uns poucos dias o campo se reverdece e fica florido outra vez, não lembrando em nada a paisagem vista uns dias antes. A Comissão do Império, após diversos estudos geográficos, escolheu o que seria a melhor rota para o transporte do meteorito até a Estação Férrea de Jacuricy. O caminho escolhido foi o mais curto, embora tivesse que transpor a Serra do Acarú. Foi preciso igualmente construir grande parte das estradas, pois as existentes eram muito estreitas e se encontravam em péssimo estado de conservação. Projetada por José Carlos de Carvalho, mandou-se construir uma carreta que engenhosamente poderia andar sobre trilhos, ou sobre rodas, dependendo das condições encontradas no trajeto. A carreta possuía dois pares de grandes rodas de madeira, para rodar em solo, e na parte interna, especialmente calculadas, rodas metálicas para rodar sobre trilhos, de tal modo que, estando sobre estes últimos, as rodas de madeira não tocassem o chão. Por vezes, o carretão era puxado por juntas de boi. Em outras ocasiões, pondo-se em prática as habilidades de um marinheiro, tirava-se proveito do emprego de estralheiras, talhas dobradas, patescas e estropos e de todas as engenhosas disposições de cabos e roldanas de que o homem do mar sabe servir-se para, com esforços relativamente pequenos locomover pesos consideráveis. No dia 25 de novembro, a carreta começou a se mover sobre o leito do riacho de Bendegó. No dia 7 de dezembro, tendo se movido por apenas 17 km, esse carro primitivo de transporte encontrou as primeiras dificuldades ao cruzar o Rio Tocas. Após dois dias de fortes chuvas, o leito do rio até então seco estava molhado e escorregadio, ocasionando o descarrilhamento do carretão, virando e atirando o meteorito para dentro do riacho. Trabalhou-se por 24 horas ininterruptas. Fogueiras foram acesas para que se prosseguisse viagem no dia seguinte. A transposição da Serra do Acarú, que obrigava a uma subida de rampas de 18 a 20% de declive, foi bastante árdua. A operação foi executada por cabos conectados ao carretão e amarrados às árvores mais grossas, propositadamente deixadas na estrada aberta, e puxadas com o auxílio de talhadeiras, talhas e juntas de boi. Conta o relatório que já quase no sopé da serra uma árvore cedeu. Os aparelhos se arrebentaram e o carretão precipitou-se por uma rampa de 30% de declive (km 22), indo parar felizmente no meio da ladeira, por ter o meteorito saltado na frente do carretão, paralisando-o. Não fosse esta queda providencial e o carretão se teria descarrilhado para o fundo de uma grota profunda. Felizmente, as chuvas só começaram a cair depois da passagem da Serra do Acarú. A marcha foi interrompida sete vezes pela queda do meteorito da carreta e quatro vezes para a substituição de eixos que se partiram. A comissão enfrentou diversas dificuldades, como a construção de estivados em lagoas, armação de passagens provisórias sobre o Rio Jacuricy de 50 metros de vão, levantamento de aterros sobre baixadas alagadas e o corte de caminhos por entre encostas de morros pedregosos. A Comissão pode orgulhar-se de ter realizado o transporte mais notável já efetuado naquela época no Brasil. Toda a marcha de 113 km pelo Sertão, entre o local onde fora abandonado 102 anos antes e até a Estação de Ferro de Jacuricy, demorou 126 dias, avançando em média cerca de 900m por dia. No dia 14 de maio de 1888 o meteorito chegou à Estação de Jacuricy e no dia 16 assentou-se o marco de chegada, denominado “Barão de Guahy”, no exato local de onde o meteorito embarcou com destino ao Museu Nacional do Rio de Janeiro. Foi lavrado um auto com todas as informações concernentes, junto com outro exemplar sobre a viagem e ambos foram colocados numa caixa de ferro deixada nas fundações do marco. Da Estação de Jacuricy o meteorito embarcou para Salvador e de trem percorreu 363 km, chegando a Salvador em 22 de maio de 1888. Lá chegando foi pesado, verificando-se que o mesmo tinha então 5360 kg. O meteorito ficou em exposição em Salvador durante 5 dias e em 1o de junho embarcou no vapor “Arlindo”, seguindo para Recife e, posteriormente, para o Rio de Janeiro, onde chegou no dia 15, sendo recebido pela Princesa Isabel e entregue ao Arsenal de Marinha da Corte. Nas oficinas do Arsenal de Marinha foi feito um corte de uma fatia de 62 kg da qual foi tirada um molde. A fatia que foi cortada em diversas outras fatias menores que foram doadas e permutadas com diversos museus do Brasil e do mundo. Confeccionou-se, também, uma réplica do meteorito em madeira, que o governo brasileiro fez figurar na Exposição Universal de 1889. Este modelo hoje se encontra no Museu de História Natural de Paris. Concluído o trabalho, o meteorito foi transportado a 27 de novembro de 1888 para o Museu Nacional, nessa época situado no Campo de Sant’Anna. Descrição obtida dos documentos de M. E. Zucolotto.

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